Ainda vale investir em loja ou terreno para alugar ao varejo em 2026? O que o Secovi-SP mostrou em outubro
Disputa por áreas, custo de ocupação perto de 10% do faturamento, Selic de 13,75% e análise ponto a ponto mudam o tipo de imóvel comercial que mantém inquilino
Por Kaio Henrique · Publicado em · 5 min de leitura
O varejo destina cerca de 10% do faturamento ao custo de ocupação e disputa terrenos com logística, e-commerce, indústria e incorporadores. Os dados foram apresentados pelo Secovi-SP em 15 de outubro de 2026. Com a Selic em 13,75% e as vendas do varejo em alta de 1,8% no ano, a demanda continua firme, mas só nos pontos que se pagam.
- Parcela do faturamento do varejo que vira custo de ocupação (casos chegam a 14%)
- cerca de 10%
- Secovi-SP (Stephany Matsuda), com base em estudos do 2º trimestre, 15/10/2026
- Vacância de galpões logísticos, nível classificado como histórico
- 4,9%
- Secovi-SP (Stephany Matsuda), 3º trimestre de 2026
- Meta da taxa Selic
- 13,75% a.a.
- Banco Central do Brasil, 17/09/2026
- Crescimento das vendas do varejo na comparação com o ano anterior
- +1,8%
- Secovi-SP (Stephany Matsuda), 15/10/2026
- Quanto um terreno a até 15 km de São Paulo pode custar a mais que um a mais de 60 km
- até 12 vezes
- Secovi-SP (Stephany Matsuda), 15/10/2026
O teto do aluguel é o faturamento da loja
Stephany Matsuda afirmou que, via de regra, cerca de 10% do faturamento do varejo vira custo de ocupação, às vezes um pouco menos. Ela ressalvou que não é regra: há casos que chegam a 14%. Segundo a diretora, o custo de ocupação está nas primeiras linhas dos balanços dos varejistas.
Na análise do Fala Imobi, esse percentual funciona como um teto prático para o aluguel. O varejista não pergunta só quanto vale o metro quadrado. Ele pergunta quanto aquele ponto vai faturar e quanto disso pode virar aluguel.
Com vendas crescendo 1,8% na comparação anual, segundo dado citado por Stephany, a margem para reajustes acima do desempenho da loja fica estreita. Quem pede mais do que o ponto sustenta tende a enfrentar renegociação ou saída do inquilino.
Selic caiu, mas ainda pesa sobre reforma, crédito e vendas
A meta da Selic está em 13,75% ao ano desde 17 de setembro de 2026, segundo o Banco Central. A taxa chegou a 15% em junho de 2025 e recuou em etapas a partir de março de 2026. Para comparação, o IPCA acumulado em 12 meses até setembro de 2026 foi de 4,58%, segundo o IBGE.
No evento, Stephany disse que os juros nesse patamar afetam a reforma do imóvel, o crédito ao consumidor e as vendas do varejo. Ela também citou o investimento alto da aposta geográfica, que inclui adaptar o ponto ao padrão de uma franquia ou de uma loja.
Na análise do Fala Imobi, imóvel que exige obra pesada antes da ocupação perde atratividade com dinheiro caro. O inquilino desconta a reforma do aluguel ou procura outro ponto pronto.
A rede já sabe quanto vale a sua esquina
Eduardo Zylberstajn, CEO da Kognita, empresa de inteligência artificial do grupo Binswanger, disse que "não existe a rua certa". Para ele, o que existe é a quadra certa, o meio da quadra e a esquina certa. Em um exemplo real que apresentou, na mesma rua um ponto tinha perfil para vestuário e, um pouco abaixo, outro tinha perfil para serviços financeiros.
A Kognita mostrou um mapa com estimativa do aluguel comercial em qualquer ponto de São Paulo, feito com modelos estatísticos. Segundo Zylberstajn, esses modelos consideram transações, a vacância do entorno e a vocação do quarteirão. Ele lembrou que algumas prefeituras disponibilizam dados de ITBI e que há informações de cartórios.
A empresa afirma ter uma base de 100 milhões de celulares no Brasil para medir fluxo de pessoas e um modelo de previsão de faturamento com um ponto a cada 11 metros. Na prática, o proprietário senta à mesa com um inquilino que já chega com uma estimativa de quanto o imóvel deveria custar.
Franquia e loja própria pagam aluguéis diferentes
Com base em dados de cerca de 1.500 unidades de redes que operam os dois modelos, Zylberstajn disse que as franquias amadurecem mais rápido. As lojas próprias faturam, em média, de 20% a 27% mais em condições normais. Os números vêm da base da Kognita, não de uma estatística de todo o setor.
Segundo ele, o investidor de franquia costuma buscar ponto menor, com aluguel mais baixo e, portanto, menos fluxo de pessoas. Na análise do Fala Imobi, isso define o público: o imóvel menor e mais barato conversa com franqueados, e o ponto de grande fluxo, com redes próprias.
Uso do solo e regularização entram no preço
Stephany disse que é preciso verificar antes se a legislação permite cada segmento, seja farmácia, mercado ou last mile (entrega rápida). Esses estudos precisam ser encomendados e, segundo ela, acabam entrando no custo de ocupação. A Binswanger atua em regularização e legalização de imóveis.
Adriano Sartori, vice-presidente de Gestão Patrimonial e Locação do Secovi-SP, citou o zoneamento como entrave e relatou cerca de quatro reuniões com a Cetesb em dois meses. Ele também defendeu que a Lei do Inquilinato tenha regras específicas para a locação comercial, pauta que a entidade diz construir há dez anos.
Na análise do Fala Imobi, um imóvel com documentação em dia e uso compatível com o zoneamento reduz o custo e o prazo do inquilino. Isso conta a favor do proprietário na negociação.
Contrato longo exige leitura de risco ao longo de duas décadas
Segundo Stephany, o varejo costuma assinar contratos de 10, 15 e até 20 anos ou mais. Nesse período, mudam o perfil do consumidor e o padrão de consumo. Ela citou o efeito das canetas emagrecedoras sobre restaurantes e supermercados.
Há também mudanças de custo para o inquilino. A PEC que acaba com a escala 6x1 foi aprovada pelo Senado em 14 de outubro, com jornada máxima de 40 horas semanais, e Celso Petrucci, diretor de Economia do Secovi-SP, lembrou ainda a reforma tributária. Para o dono do imóvel, a pressão sobre a margem do varejista pode reaparecer na renegociação e na renovação.
Que tipo de ponto mantém demanda
Stephany disse que, com o produto chegando rápido em casa pelo e-commerce, o que leva o consumidor à loja é a experiência. Ela relatou ver demanda por lojas conceito e imóveis maiores, que permitam eventos. Segundo relato de parceiros do segmento de shopping, o faturamento pode crescer até 20% quando o ponto agrega experiência, mas o número não vem de pesquisa do setor.
A diretora usou a farmácia como exemplo de estratégia territorial: o ponto de esquina precisa ter vaga e atender a uma série de exigências. Ela também afirmou que estar perto do consumidor é mais caro, mas ficar longe também tem preço.
Na análise do Fala Imobi, a demanda se concentra em pontos que combinam uso permitido, fluxo medido, metragem flexível e aluguel compatível com o faturamento estimado. O imóvel que não passa nesse filtro tende a ficar mais tempo vago.
O que muda para quem vende e para quem investe
Para quem vende: antes de anunciar uma loja ou terreno, confirme o uso permitido pelo zoneamento e a situação da documentação, porque o varejista vai checar isso primeiro. Defina o pedido de aluguel olhando o faturamento possível do ponto, já que o custo de ocupação gira em torno de 10% da receita da loja, segundo o Secovi-SP. Apresente ao cliente o perfil de uso que combina com a quadra, como farmácia de esquina com vaga, serviço financeiro ou franquia de menor metragem. Para quem investe: o ponto se valoriza pela localização exata e pela compatibilidade com o uso, não só pelo bairro. Com a Selic em 13,75%, imóvel que exige reforma pesada perde poder de negociação. Em contratos de 10 a 20 anos, considere o risco de renegociação diante de mudanças no consumo, na jornada de trabalho e na tributação. Leve em conta também que o inquilino já negocia com estimativas estatísticas de aluguel para o ponto.
Perguntas frequentes
Quanto do faturamento um varejista costuma pagar de aluguel e custos do imóvel?
Cerca de 10%, às vezes um pouco menos, segundo Stephany Matsuda, diretora do Secovi-SP, com base em estudos do 2º trimestre. Ela ressalva que há casos que chegam a 14%.
Por que terrenos para varejo e logística estão escassos?
Segundo o Secovi-SP, operadores logísticos, empresas de entrega, e-commerce, indústria e incorporadores disputam os mesmos terrenos. A vacância de galpões ficou em 4,9% no 3º trimestre de 2026, nível classificado como histórico.
A queda da Selic já melhorou o cenário para o varejo?
A Selic caiu de 15% para 13,75% ao ano, segundo o Banco Central. Mas, para o Secovi-SP, o patamar ainda pesa sobre reforma, crédito e vendas, que cresceram 1,8% na comparação anual.
Como as redes decidem quanto pagar de aluguel?
Segundo a Kognita, inteligência artificial e dados granulares já permitem às redes estimar o aluguel e o faturamento ponto a ponto. Os modelos de aluguel consideram transações, vacância do entorno e vocação do quarteirão. A empresa também mede o fluxo de pessoas com dados de celulares.
Fontes
- Secovi-SP aponta disputa por terrenos e custo de ocupação como principais desafios imobiliários do varejo
- Secovi-SP promove primeiro evento voltado ao varejo e propõe aproximação com o mercado imobiliário
- Evento do Secovi-SP mostra como IA e dados podem reduzir erros na expansão do varejo
- Taxa Selic — Fala Imobi (Banco Central do Brasil)
- Taxa Selic (meta definida pelo Copom) — Banco Central
- IPCA acumulado em 12 meses — Fala Imobi (IBGE)
- IPCA — acumulado em 12 meses — IBGE
- Série histórica no Fala Imobi: selic
- Série histórica no Fala Imobi: ipca-12-meses
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